 Conhecida como "agente Rose", Andrée Peel ajudou pilotos a fugir da França ocupada e esteve em dois campos de concentração. Em Buchenwald, escapou por um triz ao pelotão de fuzilamento.
Nascida Andrée Virot, na altura da invasão alemã geria um salão de beleza em Brest. Depressa começou a colaborar com a Resistência antinazi, distribuindo jornais de propaganda. Mais tarde, chefiou uma subsecção daquele movimento e acompanhou movimentos de tropas, usando o nome de código "agente Rose". Munida de tochas, guiava os aviões aliados que aterravam em pistas improvisadas e ajudou aviadores americanos e britânicos a alcançarem submarinos e navios para fugirem às tropas de Hitler.
Esta resistente terá salvo 102 vidas - o número deu-o ela própria à imprensa inglesa - e ajudado cerca de 20 mil combatentes e activistas antinazis. "Não sabemos o que é a liberdade até a perdermos. Todos estavam dispostos a contribuir para a luta e a arriscar a vida", afirmou, citada pelo jornal "The Daily Telegraph". Pelos seus feitos recebeu uma carta de agradecimento do então primeiro-ministro britânico, Winston Churchill, que Andrée Peel teve de destruir assim que a leu, por motivos de segurança.
Já perto do fim da guerra, em Junho de 1944, uma semana após o "Dia D", Andrée Peel foi capturada pelas tropas nazis em Paris, para onde fugira na sequência de incursões da Gestapo, a polícia de Hitler, em Brest. Enviada para o campo de concentração de Ravensbrück, mais tarde seria transferida para Buchenwald. "Só tive medo de ser torturada e de falar sob tortura. Raramente pensei na minha segurança pessoal, só fiz o que me pareceu estar certo", explicou mais tarde.
Foi em Buchenwald que Andrée Peel viveu uma das experiências mais extremas da sua vida, que quase lhe pôs fim. Estava prestes a ser fuzilada por um pelotão alemão quando chegaram as forças americanas que vinham libertar o campo de concentração. Ao ouvir o som dos tanques aliados, os nazis fugiram e Andrée sobreviveu. Já antes estivera quase a morrer de meningite.
Depois da guerra, Andrée conheceu o académico inglês John Peel no restaurante onde trabalhava como empregada. Casaram-se e mudaram-se para Long Ashton, perto de Bristol (Inglaterra). Não chegaram a ter filhos, pois já tinham ambos mais de 40 anos. John morreu há alguns anos.
Andrée Peel relatou os seus três anos junto da Resistência no livro autobiográfico "Miracles do happen" (Os milagres acontecem, sem edição portuguesa), que foi adaptado ao cinema pelo realizador William Ennals, com o título "Rose: a portrait of a resistance fighter" (Rose: retrato de uma combatente da Resistência).
Honrada com múltiplas condecorações de guerra de vários países, entre elas a Medalha da Liberdade dos EUA, uma Comenda de Conduta Corajosa concedida pelo rei Jorge VI de Inglaterra e duas Legiões de Honra francesas, Andrée Peel teve o prazer de receber uma destas das mãos do seu irmão, o general Maurice Virot, em 2004.
O lar de terceira idade Lampton House, onde Andrée Peel vivia, encheu-se de tristeza no passado dia 5. "Estamos todos em choque. Era adorável, uma personagem fascinante com um espírito fortíssimo", recordou a gerente da instituição, Sherry Kitchen, ao diário "The Guardian". Já centenária - e felicitada pela rainha Isabel II, como manda a tradição -, Andrée Peel garantia sentir-se "com 50 anos". " |