 Não acordar sonâmbulos, enganar o 'teste do balão' ou tomar vitamina C contra a constipação são apenas mitos. Algumas destas 'verdades' foram, ou continuam a ser, partilhadas pelos próprios profissionais de saúde. "Um dos segredos inconfessáveis da medicina é que muito pouco do que os médicos fazem está realmente testado. Quando o médico diz para fazer uma determinada coisa está apenas a dar o seu melhor palpite", escrevem os autores Aaron Carroll e Rachel Vreeman, professores na Faculdade de Medicina da Universidade de Indiana, EUA.
Dizem ainda assim que essa deve continuar a ser a prática comum: "Está bem assim. Um bom médico baseia-se na sua aprendizagem, experiência e conhecimentos para aconselhar o melhor que pode - por isso, na maioria das vezes, estes conselhos vão ser úteis".
Carroll e Vreeman salientam que, "para se saber se uma coisa é verdadeira, precisamos de a submeter à investigação científica - e a boa investigação requer tempo e dinheiro". Analisaram pois estudos disponíveis envolvendo algumas das ideias mais comuns sobre o corpo humano e a saúde.
Os primeiros resultados foram publicados, em 2007, no conceituado "British Medical Journal" e serviram de inspiração para o livro agora editado. "Quando publicámos os primeiros destes mitos ficámos chocados com as reacções violentas de muitas pessoas. Há quem não suporte a queda de um mito", lê-se na introdução do livro "Diga Adeus aos Mitos!"
Veja alguns desses mitos:
Dimensão dos pés, dedos e nariz revelam tamanho dos órgãos sexuais
O desenvolvimento dos membros e dos genitais são influenciados pelos genes hox e este facto contribuiu para, incorrectamente, criar a ideia de que as respectivas dimensões seriam proporcionais. A realidade é diferente porque "os genes, incluindo os deste grupo, não funcionam de forma isolada, mas em cascata". Ou seja, "o seu papel muda conforme a especificidade dos tecidos, cujo próprio equilíbrio obriga os genes a 'trabalhar' com níveis de expressão diferentes", afirma o geneticista Carolino Monteiro.
Sonâmbulos não podem ser acordados repentinamente
O único perigo de despertar alguém que está em pleno ataque de sonambulismo é ser-se agredido. O sonâmbulo pode ficar assustado e reagir de forma agitada ou violenta, mas não são de esperar riscos para a saúde. Ataques cardíacos e outros problemas súbitos são mera ficção. Ainda assim, o neurologista José Barros diz que "o comportamento dos familiares ou acompanhantes de sonâmbulos deve ser discreto. Não se ganha nada em despertar a pessoa e só se deve fazê-lo por razões de segurança ou de comodidade".
Humanos usam apenas 10% do cérebro
Esta ideia existe há pelo menos 100 anos, mas está errada. Também não é verdade que Albert Einstein tenha sido um génio por ter usado uma percentagem maior do cérebro. A tecnologia mostra que não há áreas inactivas, embora algumas sejam mais estimuladas. "Cada um de nós é capaz de desenvolver competências em diferentes domínios. Mas não podemos viver inúmeras vidas em simultâneo. Ao escolhermos caminhos de vida, abdicamos do desenvolvimento de potenciais aptidões", salienta o especialista José Barros.
Pode iludir-se o teste de alcoolemia
Há muitas 'mezinhas' - rebuçados de mentol, sal, etc. Nenhuma resulta. O 'teste do balão' determina o nível de álcool que está no fundo dos pulmões, muito próximo da quantidade que circula no sangue, e nada que se possa fazer altera o resultado. Simplificando, "trata-se de um teste enzimático que mede o álcool expirado pelos pulmões e, tanto quanto se sabe, não há nenhuma substância que anule o teste", explica o ex-presidente da Associação Nacional dos Laboratórios Clínicos, Germano de Sousa.
Ler com pouca luz é prejudicial para os olhos
A luminosidade insuficiente dificulta a focagem e diminui o ritmo a que os olhos piscam, secando-os. A leitura torna-se desconfortável, só que o olho recupera sem sequelas logo que a luz seja a indicada, isto é, a mais confortável. "Não há nada do ponto de vista científico que diga que a falta de luz danifica os olhos. Pelo contrário, o excesso pode ser mais prejudicial", diz o presidente do Colégio de Oftalmologia, Florindo Esperancinha. A prova é que nunca o mundo foi tão bem iluminado e as dificuldades de visão persistem.
Rapar os pêlos torna-os mais fortes e escuros
A única diferença entre rapar e arrancar um pêlo está na extremidade. A lâmina faz com que o pêlo fique com uma ponta aguçada, provocando um toque mais áspero e a ilusão de que é mais escuro e espesso. "Concordo em absoluto. O crescimento do pêlo é uniforme e não se altera com o corte ou o depilar", garante o professor universitário de dermatologia Américo Figueiredo. Mas acrescenta: "O arrancamento continuado é traumático para o folículo piloso (raiz), que acaba por enfraquecer ou desaparecer".
Urina transparente é sinal de saúde
"Pelo contrário, uma urina muito clara pode indicar uma doença renal. A cor depende da quantidade de água que se bebe e da capacidade que os rins têm de filtrar", diz o patologista clínico Germano de Sousa. É certo que quando a quantidade de água no organismo diminui a urina fica mais escura, mas não significa que se está menos saudável. "Não se tira, minimamente, conclusão nenhuma a partir da cor da urina", acrescenta. Por tudo isto, os especialistas são peremptórios: deve-se beber quando se tem sede.
Manteiga é um remédio caseiro para queimaduras
A manteiga, que tem uma grande concentração de gordura e portanto hidrata, é erradamente usada na pele queimada. Como é muito gordurosa, mantém o calor, ou seja, piora a queimadura, tornando-a mais dolorosa. Segundo o director do Serviço de Dermatologia dos Hospitais da Universidade de Coimbra, Américo Figueiredo, "as queimaduras ligeiras devem ser tratadas com água fria - que alivia a dor - e com um creme hidratante. Se existir bolha, pica-se lateralmente para esvaziar e mantém-se a pele".
Cabelo, barba e unhas continuam a crescer após a morte
É uma ilusão de óptica provocada pela desidratação após a morte. A pele seca e a retracção nos tecidos do crânio e dos dedos das mãos e dos pés faz parecer que o cabelo, a barba e as unhas estão maiores. O presidente do Instituto Nacional de Medicina de Legal, Duarte Nuno Vieira, explica que este fenómeno "pode ser visível nos dois a três dias entre o óbito e o funeral". Também pode surgir o 'suspiro do morto': "Os gases de putrefacção libertam-se pelos orifícios, incluindo a boca, parecendo suspiros", acrescenta.
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